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PRINCETON EM PORTUGAL

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CIDADE DE SAUDADE

Semana 1

Aqui, na capital de Portugal, a saudade está em todas partes. Os lisboetas parecem ter o poder de inalar e exalar saudade, uma habilidade especial de cozinhá-la e consumi-la na forma da sua cultura popular. Isto é evidente nas formas como esta se manifesta em arte, política, e na vida diárias dos lisboetas.


Nesta semana, aprendemos sobre os “três efes” do Estado Novo de Salazar: Fado, Fátima, e Futebol. António de Oliveira Salazar, que foi o ditador de Portugal durante décadas, usou a religião,  os esportes e a arte para controlar o povo português. Dois destes três efes, Fátima e Fado, em particular, foram amarrados à saudade pelos tempos mais “simples” e “puros”, uma saudade por um passado “glorioso”. No caso do fado, ainda que Salazar não apreciasse o gênero musical, ele apoiou a popularização do fado porque reconhecia que poderia ser utilizado pela sua máquina de propaganda. Hoje em dia, os três “efes” são vistos como uma representação antiquada do regime de Salazar que não podem descrever a complexidade da sociedade portuguesa contemporânea. Hoje, Portugal é um estado democrático e secular, grande parte das pessoas só são “católicos culturais”, e a cidade capital tem uma população significativa de imigrantes não só de antigas colônias portuguesas como de todo o mundo. Lisboa é uma cidade moderna, europeia e "global" com um governo que já não segue o lema de “orgulhosamente sós”, mas mesmo assim, nas ruas dos bairros populares da cidade é evidente que a presença de “Fátima” e “Fado” (sem falar do Futebol ou de Cristiano Ronaldo) continuam sendo parte central do coração da cidade.

Numa esquina, perto da Rua do Vigário, uma placa tem a fotografia de “Manuel”. Eu notei que em várias esquinas da Alfama, o projeto “alMa de alFama” tinha feito uma espécie de altares, ou talvez a palavra melhor seja “homenagens” aos residentes do bairro, os “alfamistas” que têm contribuído para a identidade única do bairro. Da mesma forma, escolhi estas duas fotografias para representar a minha primeira semana em Lisboa porque acho que elas emitiram um sentimento essencial da cidade: saudade.


Depois de uma visita ao Museu do Fado, caminhei pelas ruas serpenteantes da Alfama em busca de meu almoço e vi este senhor velho sentado debaixo uma placa que dizia “PATRIMÔNIO MUNICIPAL”. Ainda que fosse um dia quente e ensolarado, o senhor estava sentado com um suéter preto e uma expressão triste, literalmente sentado nas sombras. Talvez ele sentisse saudade pela Alfama do passado, talvez tivesse saudade de uma pessoa, um amigo ou um familiar que tivesse morrido. O que seja que ele estivesse pensando, ele parecia estar refletindo sobre o passado.

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A palavra saudade é uma palavra muito portuguesa, mas um sentimento muito humano. Esta cena de um homem idoso sentado nas sombras emitindo nostalgia, não é exclusiva de Portugal, mas aqui em Lisboa num bairro como Alfama, seu comportamento é parte da identidade popular. Não é difícil imaginar esta cena transformada numa pintura portuguesa ou num fado, hoje ou cem anos atrás. A imagem do cão numa janela do mesmo bairro, Alfama, é um pouco cômica. Uma igreja pode ser vista na distância detrás dele. O cão está vestido de preto, na sombra, e até olha na direção de Deus e aos céus como fazem os fadistas durante suas apresentações. Isto é Fado e Fátima! Os cães são vistos como animais energéticos que vivem no momento, mas parece que os animais “alfamistas” também são capazes de sentir saudade! Eu acho que esta imagem é evidência de que mais do que ser um sentimento humano, a saudade se torna numa coisa universal.

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FRUTOS DO MAR

Semana 2

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Diz-se que os portugueses verificam os olhos do peixe antes de comê-lo para assegurar-se de que é um peixe seguro e saudável para eles. E uma das primeiras coisas que aprendi sobre a cozinha portuguesa é que a gente come muitos frutos do mar: pastéis de bacalhau, sardinhas grelhadas, carne de porco à alentejana, etc. Aqui, na Lisboa, a influência do mar na comida é inescapável. Especialmente, neste mês de junho, um mês de festas em Lisboa, em que as noites se iluminam com as cores e sabores de cada bairro, mas onde nunca podem faltar as famosas sardinhas. Caminhando por qualquer rua, não é difícil encontrar restaurantes e barracas nas esquinas, lugares pequenos ou grandes, lugares que se dizem baratos ou caros, portugueses ou "estrangeiros". Ainda assim, todos acreditam que eles oferecem o melhor prato de frutos do mar na cidade!

Antes de chegar a Lisboa, eu já esperava ver isto: peixe, pão e vinho. Em Princeton, meu professor de português tinha falado um pouco sobre a dieta típica em lugares como Lisboa, uma dieta que parece sempre girar em torno do mesmo lugar: o mar. Eu tinha uma ideia da cozinha portuguesa como comida salgada e gordurosa sem muita pimenta ou sabor, mas menos de duas semanas depois da minha chegada a Lisboa, minha opinião mudou e minhas expectativas sobre o que constitui comida "portuguesa" foram totalmente desafiadas.

Ao longo das nossas aulas, temos falado sobre a surpreendente diversidade desta cidade, um aspecto de Lisboa que não se destaca nas imagens turísticas da cidade, mas que é uma realidade. Lisboa tem uma população de imigrantes de todo o mundo: África, Ásia, América Latina e até outros países europeus. A Lisboa que vemos nas fotos de castelos e de pastéis de nata, os anúncios de noites de fado e dos azulejos é Lisboa. Mas, ao mesmo tempo, esta é apenas uma parte da cidade. Perto da minha casa, temos até uma rua chamada Avenida Brasil e um restaurante italiano chamado "Al Forno" que tem proprietários nepaleses.

Nas nossas aulas, falamos também da história colonial de Portugal. A conversa sobre o pós-colonialismo começou mais tarde em Portugal do que em outros países. Este é um produto de parte da descolonização da África que ocorreu em meados do século XX. Mas também do mito de a democracia racial: a mentira que quando há mistura das raças não pode existir o racismo numa sociedade. De facto, as colónias e "descobertas marítimas" do império português continuam muitas vezes a ser motivo de orgulho para alguns portugueses. Isto não terminou com a ditadura de Salazar, mas continua até hoje, como evidenciado pelo número de monumentos fora da cidade que foram construídos recentemente ainda prestam homenagem aos exploradores.

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Tendo em mente a história da colonização portuguesa, a história da presença de “imigrantes” cabo-verdianos, brasileiros, angolanos, moçambicanos, chineses e indianos, entre outros, torna-se uma realidade quase lógica. Não é apenas uma mudança dos tempos modernos, a história da imigração de países pobres para países ocidentais. É também uma história de pessoas que vêm das ex-colônias emigrando para o país que no passado era seu governo. (Também é importante ter em conta que as pessoas de cor existem há milênios em Lisboa.) Por isso, quando ouvimos falar da comida do mundo existente no Lisboa, é importante lembrar que isto não é apenas o produto do globalismo ou da emigração “de sempre” que afeta todas as nações. Também é o resultado dos frutos de um império ultramarino. O piripiri no restaurante João do Grão, o caril em restaurantes "portugueses", e os inúmeros restaurantes italianos com donos que não são italianos também são "frutos do mar". A comida em Lisboa vem do mar de formas diretas e indiretas e faz parte da importância que o mar tem tido ao largo da história portuguesa.

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MUDANÇAS PÚBLICAS

Semana 3

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No meu primeiro dia em Lisboa, minha mãe anfitriã levou-me em seu carro de Alvalade a Saldanha para mostrar-me o caminho que teria que fazer todas as manhãs e tardes de segunda a sexta-feira. Além disso, ela emprestou-me alguns euros para pagar o meu primeiro bilhete de um transportes público em Lisboa. Nesse mesmo dia, ouvi falar do "cartão Lisboa Viva" que dá acesso ilimitado ao utente de transporte público na área metropolitana de Lisboa durante um mês inteiro por apenas 40 euros (mais uma taxa de entrega rápida). Antes do meu terceiro dia em Lisboa, eu já tinha este passe. Desde então, um dos aspectos inescapáveis e constantes de viver aqui como estudante tem sido usar o transporte público.


Na Califórnia, minha família usa o carro para ir a todas partes a todas as horas, mas aqui, eu tenho que esperar o autocarro ou correr à estação de metro. Pode não parecer tão conveniente, especialmente para alguém que está acostumada a fazer tudo em cima do seu joelho e sair de seu dormitório correndo para suas aulas que estão a poucos metros de onde ela acordou. Se na Califórnia, minha mãe dirige-me a todas partes (porque ainda não consigo aprender a conduzir bem) em Princeton, eu não preciso de nenhum modo de transporte para sair do campus na minha vida diária. (Eu só uso o autocarro para fazer compras no supermercado uma vez por mês ou para viajar no comboio ao aeroporto.) Uma grande parte de minha vida cotidiana em Lisboa consiste em ir e vir de autocarro de minha casa em Alvalade para minhas aulas no CIAL. Depois, eu posso entrar no metro ou eléctrico para visitar algum museu, jardim, ou miradouro que fique mais longe.

As nossas aulas de gramática combinam lições sobre verbos com conversas em que comparamos e contrastamos diferentes facetas das sociedades das quais fazemos parte e as nossas experiências em Portugal. Nossa professora, Mônica, disse que em Portugal a vida vive-se na rua. Minha mãe anfitriã, por exemplo, sai para jantar com seus amigos e familiares, não só nos finais de semana. À meia-noite, quando estou para dormir, consigo ouvir conversões e algumas risadas que vêm dos restaurantes na rua. Eu observei também que muitas famílias moram em apartamentos ou em pequenas casas separadas por andares. Lisboa não tem uma quantidade grande de bairros com filas perfeitas de casas com gramados. Parece que a cidade não tem muito espaço para viver na vida privada, por isso vai para a rua. E um aspecto importante deste espírito de viver na rua é o uso popular do transporte público.


Eu posso perguntar, se esta paragem é a correcta ou qual autocarro a gente está esperando. Depois, uma senhora poder queixar-se dos atrasos do autocarro agora que há festas todo o mês. Ela nota que não falo um português lisboeta, e pergunta de onde sou...

Enquanto os eléctricos quase sempre têm muitos turistas e alguns idosos portugueses, os autocarros e o metrô, dois transportes que utilizo todos os dias, estão sempre cheios de pessoas que representam a diversidade da sociedade contemporânea portuguesa. Existem pessoas de todas as idades, sexos, raças e classes. Uma mulher com maquiagem impecável e bolsa de grife, pode sentar-se ao lado de uma senhora idosa vestida toda de preto. Os pontos de autocarro são uma excelente oportunidade para iniciar uma conversa. Eu posso perguntar, se estão esperando há muito tempo o autocarro e qual é o número deste autocarro. Depois, podemos reclamar do atraso do ônibus agora que é junho e o mês inteiro temos festas. Logo percebem que eu não falo um português de Lisboa, e pergunta de onde é que eu sou. A conversa continua.

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Falar de conversações que acontecem em espaços de mudança e transporte, lembrou de um tema que temos discutido nossas aulas recentes e que muitas vezes é silenciado no discurso nacional: os retornados. Os retornados são as pessoas portuguesas que moravam nas colônias e tiveram que “voltar” para Portugal depois do que estas colônias ganharam sua independência. Sem falar das cicatrizes emocionais, foi um pesadelo de logística transportar e receber meio milhão de pessoas em poucos meses. Eu posso esperar o autocarro por alguns minutos e ficar impaciente, mas estas pessoas muitas vezes tiveram que esperar semanas para poder voar a Portugal porque os aviões simplesmente não tinham espaço. Quando chegaram aqui não foram recebidos como “filhos retornados” ou como refugiados escapando do perigo que tiveram que deixar “todo”, foram vistos muitas vezes com ressentimento e coragem. Nesta mesma cultura que gosta de viver na rua, uma cidade que eu é visto pela janelas de transportes públicos, o diálogo público sobre estas experiências de mudança e transporte de tantas pessoas só começa.

É difícil acreditar que estou morando aqui há quase três semanas. Já andei no comboio, no metrô, no eléctrico, e no ônibus, transportes públicos onde eu tenho tido conversas breves  e interessantes, mas algo superficiais só pelo facto de acontecer sempre em espaços curtos. Algo que gostaria de fazer é tentar, talvez, um transporte mais pessoal. Seria interessante ver que mudanças ocorreriam na minha vida em Lisboa. Como seria Lisboa andando de bicicleta, em uma moto ou mesmo em uma scooter eléctrica? Em que conversas ou mundos poderia entrar usando estes transportes?

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DUAS CIDADES, DOIS CELEBRAÇÕES 

 

Semana 4

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Esta semana é a minha última semana em Lisboa e com ela este mês de junho também chega ao seu fim. Mas as ruas dos bairros típicos de Lisboa continuam cheias de cor e celebração, decoradas com flâmulas e bandeiras que mostram o orgulho dos residentes dos bairros típicos da cidade. Em Alfama, você pode ler frases de amor como "Alfama para sempre". nas janelas de várias lojas. Os altares de Santo António e da Virgem de Fátima têm flores frescas. As barracas de sardinhas, patrocinadas por empresas de cerveza, ficam nas esquinas das ruas, brilhando com seus logotipos vermelhos, que são à vez patrióticos e boa propaganda. Junho está a mudar-se, mas as ruas dos bairros típicos de Lisboa parecem ficar em festa. Que é o que festejam?

A resposta fácil é que Lisboa está celebrando San Antonio, seu santo padroeiro. Mas como temos visto nossa leituras, a origem destas festas não é clara. Claro que em Portugal, as festas populares não são só típicas de Lisboa e não só celebram Santo Antônio.Na semana passada, viajei ao Porto para conhecer a outra "parte" de Portugal. No meu tempo em Portugal, é notado uma rivalidade bastante amistosa entre as duas cidades. Embora as cidades sejam semelhantes em muitos aspectos (ambos têm portos com acesso ao mar e ao rio, ambos têm histórias longas e ricas, belas igrejas e ruas serpenteantes, etc.), o povo de Lisboa tem preconceitos sobre o povo do Porto e vice versa. A rivalidade entre as duas cidades não me sorprende. Como as celebrações populares, as rivalidades entre lugares são bastante naturais e até ajudam a formar a tradição. Ao final, há rivalidades entre cidades que ainda fazem parte do mesmo país, entre diferentes partes de estados ou províncias, entre diferentes partes das cidades e vilas. Por maior ou menor que seja o espaço, essas rivalidades se formam entre leste e oeste, norte e sul. Por isso, até em Portugal, que é um país pequeno, existe uma rivalidade (ou talvez a melhor palavra seja a dualidade) entre as duas maiores cidades: Lisboa e Portugal.

Talvez seja eu, como o tipo de estudante-turista que sou, que estou impondo uma rivalidade entre as duas cidades. Mas antes eu já tinha ouvido e lido muito sobre as diferenças entre o Porto e Lisboa. Quando visitei o Porto, tentei identificar todas elas. Lisboa é mais cara e mais turística. Porto é menos turístico e mais autêntico. O povo de Lisboa é mais "morena". Coisas assim. Eu ainda sentia que algumas dessas coisas eram verdadeiras até certo ponto. Mas no tempo limitado que tive em Lisboa, descobri que uma das formas mais interessantes e óbvias de diferenciar as cidades é em suas maneiras particulares de celebrar.

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Em Lisboa, o desfile mostra o orgulho que cada bairro tem. As pessoas dançam a mesma música, mas surpreendem com suas fantasias, coreografias e adereços. Cada bairro tem um “rei” e “reina” que anima a multidão. No Porto, as pessoas batem as cabeças de outros com martelos (de plástico claro). Fogos artificiais são amarrados ao Ponte Dom Luís I na manhã do dia de São João, e são queimados na noite (num show que infelizmente não pude ver nesta primeira visita). 

Apesar dessas diferenças, as duas festas servem para trazer as pessoas juntas, estrangeiros e residentes, família e amigos. A espontaneidade de uma dança num jardim ou as filas serpentinas de clientes querendo comer as sardinhas assadas acontecem afora, nos espaços públicos das cidades, e mostram a diversidade e complexidade destes lugares. Os churrascos que são preparados afora, a música que é ouvida afora, e até as pessoas que tentam nos vender coisas afora… Ambas cidades se voltam mais visibles quando estão em festa, e não é sou um produto da música é da dança que tem volume e são expressivas,  se não desse orgulho regional que as inspira. Orgulho de ser português, e a mesma vez de ser de Lisboa ou de ser de Porto, de escutar uma música indiana a só passos do aroma duma churrasqueira brasileira.

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